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Terça-feira, 21 de maio de 2024

Meio Ambiente

04/07/2009 09:26:54

POLÍTICOS “BATEM” NO MINISTRO MINC EM VILHENA

Foi recorrente. Na audiência pública da Assembleia Legislativa de Rondônia, assistida por cerca de 500 pessoas e realizada ontem (sexta-feira, 3) entre 15h e 19h, na Avec (Associação Vilhenense de Educação e Cultura), o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (PV) – que não estava presente –, foi duramente criticado e chamado de “maconheiro” e “vagabundo” pelo deputado Ribamar Araújo (PT) e de “louco” pelo senador Valdir Raupp (PMDB). Curiosamente, os dois são aliados do Governo Lula.

“Eu sou do Partido dos Trabalhadores, mas sou a favor da verdade e da justiça. Eu também sou agricultor e acredito que a floresta precisa ser usada para gerar riquezas para os 50 milhões de brasileiros que estão abaixo da linha de pobreza. Tem prevalecido a tese dos inocentes [ambientalistas] e dos bandidos [militantes das ONGs] em detrimento dos interesses nacionais”, afirmou Ribamar Araújo, que também fez elogios ao governador Ivo Cassol (PP), de quem o partido dele é adversário. 

 O senador Raupp disse que a suposta "loucura" de Carlos Minc, "expressada em sua "intransigência" não é algo de todo ruim. "Os ruralistas precisam ver por outro lado. É justamente o fato dele ser um louco credencia nossos pleitos e vai, por fim, derrumbá-lo do ministério. A loucura dele é nossa aliada”, analisou o parlamentar.

 Já o presidente da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) em Rondônia, Salatiel Rodrigues, descambou para o preconceito contra o estado de origem do ministro, o Rio de Janeiro, afirmando que “a Rocinha [referência à favela carioca] de Minc não produz nem arroz e nem feijão. Só produz maconha\\\".  

As investidas contra Minc teria sido uma resposta ao fato do ministro ter se referido aos ruralistas (grandes produtores rurais) como “vigaristas”. Inclusive, ele está sendo processado pela CNA (Confederação Nacional dos Agricultores) por causa da afirmação que ele mesmo admitiu, posteriormente, ser “inadequada”.

Cerca de 30 agricultores usaram camisetas em protesto a Carlos Minc, com a inscrição: “Queremos respeito. Não somos vigaristas. Sem alimentos não vivemos”. 

O vice-govarnador João Cahula (PPS) atribuiu a culpa das supostas ingerências de Minc com clarre ruralista ao presidente Luis Inácio Lula da Silva. "Quem é que o nomeou? Foi o presidente. Então dele a responsabilidade de ter termos um louco, há dois anos, como ministro de Estado", acusou Cahula. 

Poucos deputados estaduais compareceram ao ato político em Vilhena:  Ribamar, Kaká Mendonça (PTB), Luizinho Goebel (PV) Ezequiel Neiva (PPS), Luis Cláudio (PTN) e Neodi Carlos Oliveira (PSDC). Além deles, estiveram presentes o senador Raupp; os deputados federais Natan Donadon (PMDB) e Moreira Mendes (PPS); o vice-governador Cahula; o secretário de Estado da Agricultura, Carlos Magno; o presidente da agência Idaron, Augustinho Pastores;  o prefeito Zé Rover (PP); prefeitos e vereadores da região.

A audiência discutiu os impactos do novo Código Florestal, em trâmite no Congresso Nacional, e que prevê mais rigidez na fiscalização e punição dos agropecuaristas que atuam de forma irregular na região Amazônica. Um dos pontos altos foi a palestra com o presidente da Federação dos Pecuaristas do Estado do Acre, Assuero Veronez. Com indicadores e teses na ponta da língua, Assuero prendeu os atentos ruralistas por mais de uma hora e foi aplaudido de pé. Ele destacou que "a filosofia do governo federal tem sido para beneficiar índios, quilombolas e sem-terra em desfavor da produção".

O objetivo do evento era colher dados da aristocracia fundiária local para levar os pleitos de Rondônia à bancada federal do estado e acabou culminando em discursos político-ideológicos inflamados, que reuniram apenas organismos patronais. O excesso de formalidades, com cada inscrito a usar o microfone cumprimentando um a um os membros da mesa, irritou parte do público e fez a sessão demorar mais do que o necessário.

Houve alguns momentos “delicados” durante os discursos. O deputado federal Natan Donadon, por exemplo, chegou a bater boca com um homem que estava na plateia. Natan estava ao microfone citando as autoridades presentes, nominalmente, quando foi interrompido aos gritos: “Não andei mais de 200 km para ouvir você. Chega de discurso”. O deputado respondeu no mesmo tom: “Educação vem de berço. Leve esta lição hoje para casa”. Mesmo ríspido, o parlamentar tratou de encerrar logo sua fala, temendo mais protestos.

Neodi Carlos Oliveira atribuiu o incidente à divisão que existe entre “agricultores” e \\\\\\\"ruralistas\\\\\\\". Presidindo a sessão com um enorme chapéu (VEJA FOTO ABAIXO), típico de fazendeiro bem-sucedido, Neodi disse que não estava ali tratando de interesses de latifundiários e que não consegue distinguir o agronegócio da agricultura familiar. “Estamos aqui para tratar dos interesses dos grandes e dos pequenos”, pontuou.

O presidente da Assembleia atacou o rigor de órgãos ambientais, “movidos a interesses de organizações não-governamentais (ONGs) patrocinadas por outros países”. Neodi disse que ele mesmo já foi vítima destes órgãos. “Tive que fechar minha madeireira que gerava 350 empregos em Machadinho do Oeste (RO) por causa das seguidas investidas do Ibama e da Polícia Federal, orientados pelo Ministério do Meio Ambiente, que nunca encontraram nada de irregular no estabelecimento, mas fizeram de tudo para me retirar da empresa algemado”, afirmou.

Neodi considerou que a audiência de Vilhena foi a melhor dentre todas as realizadas no estado e anunciou que os deputados estaduais irão elaborar um Código Florestal Estadual. “Mesmo que sejamos criticados pelas ONGs e pela imprensa nacional, vamos enfrentar e fazer algo de acordo com a nossa realidade”, avisou.

O presidente da ALE conclamou, ainda, os ruralistas a se comportarem como “esse povo” [os ambientalistas] e se for preciso ir para Brasília (DF) e fazer \\\"movimento e barulho; deitar na rua, acampar durante dez dias. Vale tudo, antes que aconteça com a agricultura o que aconteceu com o setor madeireiro\\\". Arrematando, o deputado federal Moreira Mendes disse que “é preciso conseguir aliados em outros estados, pois ainda somos poucos, tanto no Congresso (11 parlamentares, entre senadores e deputados) e uma população pequena para exercer uma pressão”. Para Mendes, “os ambientalistas são pessoas perigosíssimas” e precisam ser combatidas com as armas deles: a mobilização.

Valdir Raupp disse que o grande problema da questão ambiental está na burocracia. “Demora-se muito para se conceder, quando se concede, uma licença ambiental. Tenho informação de que aqui em Vilhena, no ano passado só foram liberadas duas licenças, dificultando o acesso ao crédito. Esse novo código em trâmite no Congresso tem 16 mil propostas de emendas. Vejam os senhores que a Lei Áurea, que aboliu a escravatura, tinha apenas dois artigos. É preciso simplificar. O código em vigor, de 1965, levou 13 anos para ficar pronto. E o de agora vai levar quanto tempo?”. 

Falando em nome de Vilhena, o prefeito Zé Rover (PP) garantiu, aos gritos, que conhece “a realidade dos fazendeiros” e que se solidarizava com “estes sofredores que abriram o estado de Rondônia”.

Representantes do Sindicato dos Produtores Rurais de Vilhena entregaram um documento ao presidente da ALE contendo as reivindicações da classe patronal do município e o pecuarista Marco Túlio Teodoro falou em nome dos produtores locais. Segundo Teodoro, “antes os agricultores eram os heróis e agora são tratados como bandidos. Mas eu sei que sou um desbravador, assim como todos os senhores [referindo-se aos colegas ruralistas], e não vim para cá de oferecido, mas sim a convite do Governo Federal que incentivava a exploração da Amazônia como forma de integrar o Brasil”.  

INSATISFAÇÃO – Apesar de a maioria do público ter se mostrado satisfeita com a audiência, embalada em discursos apaixonados de políticos e ruralistas, teve quem saiu do encontro contrariado. Foi o caso do presidente da Associação de Pequenos Agricultores Águas Claras, Adilson Alves Machado. “Em momento algum eles falaram da agricultura familiar. Nos chamaram aqui para dar volume, pois fazendeiros são poucos em Rondônia. Trataram de criação de bois, produção de soja, ou seja, assunto de interesse deles”, afirmou.

Para João Benetti, presidente da Cooperunião (União das Associações Rurais de Vilhena), que agrega nove entidades, a discussão “fugiu da pauta” e acabou virando “discursos políticos sem consequências práticas”.   





Fonte: FS
Autor: Júlio Olivar

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