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Terça-feira, 23 de Julho de 2019

Geral

17/06/2019 12:36:00

Garon Maia: em entrevista histórica, “Rei do Gado” que morreu ontem, aos 93 anos, relembra saga como “boiadeiro” e aviador


Jornalista Adevania Silveira conversou com o lendário pecuarista em sua fazenda em Corumbiara

Numa de suas últimas entrevistas, concedida à jornalista Adevania Silveira, e publicada pela revista “The Book”, de Goiânia (GO), o lendário pecuarista Garon Maia, que morreu ontem, aos 93 anos, falou de sua trajetória.

A conversa com Adevania aconteceu em 2015, na fazenda do “velho boiadeiro”, em Corumbiara, quando Maia falou do livro que escreveu para contar sua saga.

O homem de hábitos simples, que costumava ser confundido com um dos muitos colonos da região de Cerejeiras, cidade que costumava freqüentar, morreu em sua casa, na cidade de Araçatuba (SP) onde, segundo o neto Garonzinho Maia, foi velado e sepultado ontem.

Leia abaixo a entrevista, com imagens do fotógrafo David Paul Vargas Rojas:

Um boiadeiro na Amazônia

por Adevania Silveira, de Corumbiara (RO)

The Book entrevistou Garon Maia, um dos maiores criadores de gado de corte do País, irmão do lendário Tião Maia, que aos 89 anos vive em uma de suas fazendas no sul de Rondônia,onde ainda acorda às cinco da manhã para trabalhar

Três horas de voo separam Goiânia de Vilhena, a cidade que dá boas-vindas ao Estado de Rondônia. De lá, até o município de Corumbiara, ao sul do Estado, são mais duas horas percorrendo o asfalto em caminhonete. Depois de cruzar a cidade de 8.500 habitantes, é preciso vencer a última meia hora em estrada de chão até chegar à guarita que autoriza o acesso à Fazenda Ivyporã. No caminho até a sede, a paisagem se desdobra em extensas plantações de soja e pastos verde-escuros salpicados de bois, os dois negócios mais prósperos da região.

A casa de 1.100 metros em formade asa de avião,na cor terracota, se destaca na imensidão do gramado recém aparado que circunda a propriedade. Canteiros de ixoras vermelhas emolduram imponentes toras de mogno colocadas como esculturas no jardim. Do lado oposto,uma fileira de mussaenda-rosa demarca a pista de pouso, em meticulosa simetria. É manhã, horário das duas araras do mato pousarem para comer as frutas que lhes são oferecidas diariamente. Um espetáculo da natureza corriqueiro na Amazônia Legal.

A fazenda com pinta de cenário de novela foi o lugar que o ex-boiadeiro e ex-aviador Garon Maia, prestes a completar 89 anos, escolheu para ser o que considera seu "refúgio final". Natural de Passos (MG), comanda com os três filhos, Porthos, D'Artagnan e Garon Maia, o Garonzinho, e o neto Rodrigo Jacinto (filho de Carminha Maia, já falecida), um grupo com forte atuação no setor agropecuário rondoniense e com presença em diversos Estados brasileiros. A sede do grupo fica no município paulista de Araçatuba, onde morou por 50 anos, antes de seguir para norte do País. 

Pioneiro em Rondônia, chegou na década de 80, atraído pela terra de boa qualidade, clima quente e úmido, ótima topografia, e preço ainda muito baixo. Nas últimas três décadas, entre compra e venda de propriedades nas regiões que formam o chamado Cone Sul, mantém três grandes fazendas que somam 42,5 mil hectares, destinadas à criação de gado para corte, em sistema extensivo (o gado fica livre no pasto natural), alternada com lavouras de soja, milho e arroz, em arrendamentos que têm o objetivo de reformar os pastos. "Aqui é completo, não ia encontrar nada melhor que em Rondônia", afirma Garon, cujo nome de batismo é o mesmo do pai, Braulino Basílio Maia Filho. Em Mato Grosso,mantém outras duas grandes propriedades, dedicadas às mesmas atividades.Somadas às de Rondônia, formam mais de 60 mil hectares. 

A vocação para a criação de gado vem de berço. Assim como o pai, Garon começou a vida comprando e vendendo bois, saindo em comitivas do interior de Minas em direção a Araçatuba. É irmão caçula do lendário pecuarista Sebastião Ferreira Maia, o Tião Maia, que na década de 70, ao se ver perseguido pelo regime militar, fechou as porteiras de suas fazendas no País e recomeçou a vida na Austrália, onde novamente prosperou tornando-se dono de 1 milhão de hectares e 65 mil cabeças de gado. Ao retornar ao Brasil, doente e sem filhos, o "barão do gado australiano" delegou ao sobrinho Aramis Patti Maia o comando de seu império. Morreu em 2005 deixando como herdeiros diretos os cinco irmãos, dois homens e três mulheres. 

Era janeiro pós-festas, quando Garon Maia recebeu The Book em seu paraíso particular. Viúvo há 8 anos de Neuza Mariene Pádua Maia, com quem esteve casado por 60 anos, raramente deixa a fazenda, embora mantenha duas aeronaves estacionadas no hangar. Preferiu passar o Natal e a virada do ano na fazenda, na companhia dos empregados, entre eles Ana Batista de Almeida, que trabalha para a família há 22 anos. A rotina também não foi alterada. Como de costume, acordou às cinco da manhã e, depois de tomar café,saiu para vistoriar os pastos. Os filhos, porém, não se ausentam por longos períodos, se revezando nas visitas à fazenda para fazer companhia ao pai e tocar os negócios. O mesmo acontece com os netos Garon Filho, Antônio e Rafael Maia, que seguem os passos do pai, Garonzinho, e do avô.  

Diferente de Tião,cuja vida pessoal esteve cercada de glamour, poder, mulheres e festas, Garon Maia cultivou uma vida discreta, dedicando-se exclusivamente aos negócios e à família, e mantendo-se a uma distância segura do terreno político.Embora dono de um dos maiores rebanhos bovinos do País e de longas extensões de terra, se recusa a ser chamado de "pecuarista" que, a seu ver, é a tradução da classe "mais elitizada" do ramo, de gente que gosta de frequentar leilões e exposições agropecuárias e de aparecer nas colunas sociais.Garon prefere o título de "boiadeiro", ainda que, segundo ele, para muitos seja sinônimo de atraso. "Sempre preferi ficar mais recluso. Velho gosta de isolamento", diz convicto.

Garon é um homem de hábitos simples. Nos estudos, completou somente o que equivale hoje ao ensino fundamental, mas demonstra ter vasta cultura. Gosta de ler e ouvir concertos musicais. A decoração da casa revela o gosto apurado do dono. Na sala principal, conserva um piano, obras de arte e muitas antiguidades. 

Entre o mobiliário rústico criado por um artesão local, estão valiosas peças em jacarandá da baía, arrematadas da família do influente político e pecuarista mineiro, Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, famoso também por ter desenvolvido a raça mangalarga. O precioso acervo inclui um retrato do barão pintado em óleo sobre tela, que divide a parede do escritório com uma grande fotografia do irmão Tião Maia.

Garon Maia nasceu com tino para os negócios. Aos nove anos, ao ver um menino vendendo vidros, percebeu que podia ganhar dinheiro fazendo o mesmo. Aprendeu cedo o que hoje os manuais de empreendedorismo pregam como regra de ouro: facilitar ao máximo o negócio para o parceiro, oferecendo-lhe vantagens. Jamais perdia uma chance de negócio. Vendeu crina de boi para selaria, lenha para rede de ferrovia e porcos, numa época em que se usava a banha para cozinhar. "As oportunidades vinham para mim, mais do que eu ia atrás delas", revela.

A seriedade que imprimiu aos negócios obteve reconhecimento dos parceiros. "Ouvi muitas vezes que preferiam vender fiado para mim do que a dinheiro para os outros", orgulha-se. Também pioneiro em Rondônia, o fazendeiro Adelmo Alves dos Santos, 70, confirma a admiração dos seus pares pelo ex-boiadeiro. "É impressionante a gana pelo trabalho que ele tem até hoje e o amor por tudo o que faz", atesta.

Garon interrompeu o estudo convencional para trabalhar, mas aprendeu a pilotar ainda muito jovem, antes dos 20 anos, por incentivo do pai. Aos 24 comprou, nos Estados Unidos, o primeiro avião - um Cessna 140- e, aos 30, tornou-se dono de uma empresa de táxi-aéreo. Rapidamente os negócios nesta área prosperaram. Com fazendeiros cada vez mais interessados em comprar avião, na época chegou a ter 12 unidades encomendadas e vendidas, o que acabou por torná-lo representante da empresa no Brasil, sem jamais ter pleiteado o cargo. E isso, sem falar uma palavra em inglês.

Em 1958 experimentou a maior aventura de sua vida, que hoje considera ter sido embalada por muita "audácia e ignorância juntas". Garon decidiu, ele próprio, fazer o traslado de um dos aviões dos Estados Unidos para o Brasil. Foram 15 dias de viagem e 56 horas de voo entre Wicchita, no Estado do Kansas, e a fazenda São Francisco, em Andradina (SP), onde a família o esperava. O trajeto foi todo feito costeando as Américas, incluindo a arriscada travessia dos Andes. 

Este e outros momentos marcantes da trajetória do ex-boiadeiro e ex-aviador foram recentemente relatados no livro Garon Maia - Memórias, uma espécie de inventário público de sua vida, escrito na primeira pessoa e organizado pelos netos Eduardo Maia e Maria Carolina Maia Villela de Andrade. "Não se trata de autobiografia, mas de um caderno de memórias", avisa, modesto. A obra ganhou encadernação de luxo, com capa de linho e a iniciais GM -as mesmas que usa para marcar a boiada- impressas em baixo relevo. 

Além de contar fatos relevantes do início em Minas à chegada em Rondônia, o livro traz uma curiosa lista das propriedades adquiridas pela família Maia e para quem as mesmas foram vendidas, são 52 no total. Além das fazendas, estão relacionados imóveis e frigoríficos negociados com grandes grupos, como a multinacional Cargill e a brasileira Marfrig Global Foods. 

O livro fecha com uma segunda lista, onde nomeia e agradece as pessoas com as quais negociou e acabaram tornando-se amigos. Nela, consta um nome muito familiar no meio agropecuário goiano e entre os torcedores do Vila Nova Futebol Clube: Antônio Inácio da Silva, o folclórico Tonico Toqueiro, um dos maiores criadores de gado de Goiás e ex-presidente do clube vilaboense, morto em 2010. Com Tião Maia, Toqueiro formava o panteão dos pecuaristas legendários. 

Ao mostrar o livro, Garon Maia não contém a emoção quando se depara com a fotografia da mulher Neuza, sua fiel companheira, que teve morte trágica e acidental por engasgo, há oito anos. Na imagem do livro, Neuza aparece no centro de um acampamento em Rondônia, rodeado pela floresta. De chapéu e roupas claras, a elegância em contraste com a rusticidade do lugar, chama a atenção. O ex-boiadeiro chora.É a dor da saudade, sentimento com o qual jamais aprendeu anegociar. Garon Maia se emociona, mas a firmeza de boiadeiro não demora a se manifestar. Em seu paraíso verde, Garon Maia cumpre a sina na mesma toada da canção que diz: "Como um velho boiadeiro/Levando a boiada/Eu vou tocando os dias".




Fonte: Foto: David Paul Vargas Rojas
Autor: Da redação

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