“Lamento muito que o senhor tenha chorado ao falar de fome, e dizer que nós não nos sensibilizamos”
Na última sessão do mês de abril da Câmara Municipal de Vilhena, o vereador Samir Ali (Podemos) relatou o recebimento de denúncias de supostas irregularidades na doação de cestas básicas com produtos da merenda escolar.
Atendendo a convocação feita pelo Legislativo para dar explicações sobre as supostas irregularidades, o secretário municipal de Educação de Vilhena, Edson Willian Braga, compareceu à Câmara Municipal na sessão de hoje e respondeu os questionamentos dos parlamentares por mais de duas horas sobre as doações de cestas básicas e sobre a denúncia de suposto uso irregular de veículo oficial.
No primeiro caso, de acordo com os vereadores Samir Ali, Ronildo Macedo e Wilson Tabalipa (os dois últimos do PV), as denúncias apontam que Braga ordenou o recolhimento da merenda nas escolas sem qualquer protocolo que comprovassem a retirada, nem a quantidade returada de cada instituição.
Esses produtos teriam sido transformados em cestas básicas e entregues pelo atual secretário e pela ex-titular da Smed, Vivian Repessold. Assim como o recolhimento dos produtos nas escolas, a entrega também foi feita sem qualquer protocolo que comprovasse quem e quando recebeu; assim como não ficou definido o método usado para escolha de quem recebia.
O secretário assumiu que a retirada da merenda das escolas ocorreu sem qualquer protocolo, e tentou justificar a ação, alegando que dois colégios já haviam sido furtados, um terceiro sofreu uma tentativa, e que os diretores pediram o recolhimento dos produtos. De acordo com Braga, a urgência em retirar os alimentos, dando a entender que isso foi feito para a segurança das escolas, seria o motivo da ausência dos protocolos.
Braga foi contestado por alguns vereadores, entre eles a Professora Valdete Savaris (PPS), que questionou se apenas a merenda escolar seria o alvo dos furtos, sendo que as escolas têm bens de valor, como televisores, computadores e ares-condicionados. O presidente da Casa, Ronildo Macedo, alertou que se fosse interesse do secretário, a contagem dos produtos teria sido feita no ato do carregamento sem atraso no trabalho.
O secretário também se enrolou ao tentar explicar o porquê apenas depois de ficar sabendo da investigação dos vereadores é que ele e sua equipe, dias após a entregar das cestas, retornaram às casas para protocolar as entregas.
Os vereadores foram incisivos e insistentes em algumas questões. Em dado momento, ao ser questionado novamente sobre se achava correta a forma como a entrega das cestas foi feita, o secretário, chorando, disse: “Eu atendi com o meu coração aberto pessoas que estavam passando fome; se os vereadores não se sensibilizam com esta situação, eu me sensibilizo”.
Sobre o suposto uso irregular de carro oficial, a denúncia é que Braga teria ido até a cidade de Rolim de Moura, contrariando o decreto municipal que diz que apenas veículos da Saúde podem sair do município neste período de pandemia. De acordo com os vereadores, a denúncia também diz que ele teria viajado com a esposa.
Braga confirmou a viagem a Rolim de Moura, mas, disse que não chegou à cidade. Segundo ele, após verificar inúmeras ligações do vereador Ronildo Macedo, decidiu interromper a viagem e retornar para Vilhena. Questionado pelo vereador Samir Ali se ele sabia do decreto que impedia a saída do veículo oficial do município, Braga afirmou ter conhecimento, mas disse: “Era bate-e-pronto”, sugerindo que a viagem era rápida.
Braga negou que o prefeito Eduardo Japonês tenha dado qualquer orientação sobre a forma que ele agiu no caso da merenda, como também negou que o mandatário soubesse da sua viagem a Rolim de Moura, segundo ele para buscar informações sobre a doação de cestas básicas, uma vez que, segundo alega, aquele município já vinha fazendo esta ação.
Nas considerações finais, o vereador Samir Ali sintetizou o que parece ser a opinião da Casa, a de que o secretário Braga cometeu crimes e deve ser responsabilizados por eles.
“Desde o princípio quando você tirou a merenda das escolas sem protocolo, começou os seus erros. A ida a Rolim de Moura, desrespeitando um decreto; mentindo ao responder o ofício que eu te encaminhei, e agora afirmando que já tinha começado essas entregas antes. Não importa se eram quatro, seis, oito ou dez, você deveria ter informado a resposta correta ao ofício que eu protocolei. É isso que se espera de um secretário: transparência e verdade. Ainda mais da Educação. Lamento muito que o senhor tenha chorado ao falar de fome, e dizer que a nós não nos sensibilizamos; quando na verdade nós fizemos ações efetivas, buscamos recursos, ajudamos o Executivo para que pudesse ser feita essas entregas pela SEMAS. Nós não fizemos política, que foi o que o senhor fez, chamando a ex-secretária, que é pré-candidatada a vereadora, para fazer as entregas. Eu não tenho preconceito sobre homem chorar. Pra mim, homem deve chorar. Mas, eu ficaria mais contente se o senhor tivesse chorado aqui por arrependimento pelos atos que foram cometidos. Pela irresponsabilidade sua e da secretaria”, pontuou antes de concluir: “Eu acho que você deve ser responsabilizado pelos seus atos e pelos crimes que você cometeu. É isso que a gente espera do gestor, é isso que a gente espera do prefeito, que ele responsabilize você de acordo com a lei, porque você enumerou e confessou diversas irregularidades cometidas por você”.
Autor:
Rogério Perucci
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 05 de Maio de 2020, às 15:18