Flori diz que a cidade que administra se tornou Governo do Estado no Cone Sul quando o assunto é saúde e que isso deixa o município sem recursos
 
O prefeito de Vilhena, Delegado Flori Cordeiro (Podemos), iniciou uma ação judicial contra o Governo do Estado de Rondônia, alegando “abandono na gestão da saúde” no Cone Sul da região. Segundo o prefeito, Vilhena, que administra um hospital regional, está suportando sozinha um ônus financeiro que deveria ser compartilhado.
 
Flori Cordeiro argumenta que a cidade se tornou o "Governo do Estado" de fato no que diz respeito à saúde no Cone Sul, situação que tem drenado recursos destinados a educação, infraestrutura e saneamento básico.
 
O problema é velho e, desde que o hospital passou às mãos do município, todos os prefeitos vilhenenses estão nesse “atoleiro”, no entanto, o primeiro a se revoltar parece ser o atual mandatário.
 
“O Hospital Regional de Vilhena (FOTO) hoje é, na verdade, municipal. Mas tem a responsabilidade regional e atende a dez outras cidades, incluindo três de Mato Grosso. Recursos que deveriam ser usados em asfalto, escolas e pontes na zona rural são alocados para a saúde. E, mesmo assim, os gastos têm sido reduzidos ao mínimo possível para evitar um colapso do restante das responsabilidades da prefeitura”, explicou Flori.
 
Há mais de um ano o prefeito tenta, sem sucesso, uma audiência com o governador Marcos Rocha (União), que em 2023 chegou a prometer em uma rádio em Vilhena que iria “assumir” o Hospital Regional.
 
Em um movimento estratégico – tido por alguns como desesperado - Flori protocolou um pedido de mediação junto ao Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (TCE-RO) para tentar resolver a crise financeira que se arrasta há décadas. De acordo com o documento, Vilhena custeia 70% dos serviços de média e alta complexidade na região, enquanto o Estado contribui com apenas 5%.
 
Vilhena mantém estruturas como o Hospital Regional Adamastor Teixeira de Oliveira, o Instituto do Rim de Rondônia e a UPA, atendendo uma população de aproximadamente 735 mil pessoas. Em 2023, o município investiu R$ 54,6 milhões no hospital, recebendo apenas R$ 13,8 milhões do Estado. Para 2024, apesar das promessas de aumento, o repasse estadual foi previsto em R$ 37,8 milhões, valor insuficiente para atender às demandas e aliviar o município que, pela legislação, nem é responsável por esse encargo, mas o faz para não deixar a população desamparada.
 
No pedido de mediação, o prefeito destaca a disparidade no tratamento dado a Vilhena em comparação com outras regiões. Como exemplo cita o município de Guajará-Mirim, que receberá um aporte de R$ 92,4 milhões anuais para seu novo hospital regional com 84 leitos, enquanto Vilhena, com mais de 200 leitos, recebe apenas um terço desse montante.
 
Além dos custos operacionais, Vilhena também arca sozinha com uma folha de pagamento de R$ 17 milhões na área da saúde, responsabilidade que, segundo o município, deveria ser do Estado.
 
“Com esses níveis de gasto em Saúde (27,72%), somados aos investimentos obrigatórios em Educação (25%) e os mais de 44% empenhados em folha de pagamento, temos um cenário de estrangulamento financeiro que impede o uso dos recursos próprios nas necessidades locais”, detalha o documento apresentado por Flori ao TCE-RO.
 
 
O prefeito enfatiza que “a diferença de tratamento é inconstitucional e discriminatória. Vilhena não quer privilégios, mas equidade”. O município pede ao Tribunal que convoque o Estado de Rondônia e os municípios envolvidos para uma rodada de reuniões, buscando uma resolução antes de medidas mais drásticas.
 
O secretário de Saúde de Vilhena, Wagner Borges, expressa esperança: “não preferimos as decisões drásticas de tribunais; temos fé de que nossos apelos serão reconhecidos como justos, porque o secretário de Estado da Saúde, Jefferson Rocha, conhece nossa realidade e é uma pessoa presente em Vilhena. Seus esforços deram resultado muito maiores do que seus antecessores, mas o Estado ainda está em dívida com Vilhena e região nesse aspecto”.
 
Este conflito destaca um problema mais amplo de distribuição de responsabilidades e recursos no sistema de saúde brasileiro, onde municípios como Vilhena enfrentam desafios significativos para manter serviços essenciais sem o apoio adequado do Estado com graves consequências para diversas outras políticas públicas essenciais.